27 de Março, 2025 Ernesto Martins
Ciência e Cristianismo (2)
Os primeiros séculos do Cristianismo foram caracterizados por uma certa ambivalência nas atitudes dos padres da Igreja perante o conhecimento dos gregos. Alguns, receando os efeitos subversivos da filosofia na fé, manifestaram abertamente o seu desprezo para com o legado pagão. Taciano (120-172), o autor do Diatessarão, escreveu no seu “Didascalia Apostolorum”
“Evitem todos os livros pagãos. Que respeito vos devem ideias estranhas, leis ou pseudo-profetas que muitas vezes levam homens inexperientes ao erro?”
Basilio de Cesareia (329-379) deliciou-se a subverter a ciência grega:
“Os sábios gregos escreveram muitas obras sobre a natureza, mas nenhum desses relatos permaneceu inalterado e firmemente estabelecido. O relato posterior derrubou sempre o anterior. Como consequência não há necessidade de refutarmos as suas palavras; eles se aproveitam mutuamente para a sua própria ruína”
Representando o epítome deste anti-intelectualismo, Tertuliano (150-225) escreveu celebremente
“O que Atenas tem a ver com Jerusalém? Que concórdia existe entre a academia e a Igreja? E entre hereges e cristãos… Não queremos nenhuma disputa curiosa depois de possuirmos Cristo Jesus; nenhuma inquirição depois de desfrutarmos do evangelho. Com a nossa fé não desejamos mais nenhuma crença”
Outros padres, mais moderados como Justino Mártir (100-165), Clemente de Alexandria (150-215) e Orígenes (185-253), reconheciam valor na filosofia grega, sobretudo nas doutrinas de Platão devido às afinidades com a teologia cristã predominante. No entanto – e é isto que pretendo salientar nesta parte do artigo –, o conhecimento que era absorvido da tradição clássica, era-o unicamente
1) porque tinha interesse para a defesa da fé cristã, ou
2) para que os cristãos não passassem por ignorantes nas disputas com os pagãos.
Ou seja, não acontecia por amor à verdade ou ao conhecimento como fim em si mesmo.

Clemente e Orígenes argumentaram que o Cristianismo podia beneficiar do conhecimento pagão. Em particular podia usar em seu proveito a lógica, a dialética e a metafísica dos gregos para, por um lado, explicar os dogmas do Cristianismo e, por outro, defender a versão (proto) ortodoxa do Cristianismo perante as variantes heréticas que se multiplicaram nos primeiros séculos. A filosofia era assim aceite, mas apenas como serva da teologia. Foi neste estatuto subalterno de serva (philosophia ancilla theologiae) que a filosofia (e, depois, a filosofia natural, isto é a ciência) funcionou durante toda a Idade Média.
Para um luminário da Antiguidade tardia como Agostinho de Hipona (354-430), o conhecimento filosófico, quando útil, devia ser mesmo apropriado pela teologia. A este respeito escreveu no seu “De doctrina Christiana”
“Se os filósofos dizem coisas que são verdadeiras e estão bem adaptadas à nossa fé, o que eles dizem deve ser despojado deles, como se faz aos proprietários injustos, e convertido para nosso uso”
Mas apenas a filosofia que não é contrária à fé deve ser considerada verdadeira.
Além disso Agostinho não via o exercício da razão como o tipo de actividade intelectual que persegue os argumentos até às últimas consequências. A função da razão era apenas a de elucidar a fé. A fé devia sempre preceder a razão, porque
“todo o conhecimento derivado dos livros dos pagãos torna-se bastante pequeno se comparado com o conhecimento das escrituras divinas”
Embora se tenha dedicado inicialmente ao estudo das artes liberais (a retórica, a lógica, a aritmética, a geometria, etc.), no fim da sua vida Agostinho concluiu que as ciências não tinham qualquer utilidade. Em “De doctrina Christiana” escreveu
“Não deveríamos ficar alarmados se os cristãos desconhecem o conhecimento natural contido na tradição clássica. É suficiente que compreendam que Deus é a única causa das coisas criadas”
Contudo para Agostinho era importante que os cristãos não passassem por ignorantes perante os pagãos. Preocupava-o que, influenciados por interpretações ingénuas das escrituras, expressassem opiniões absurdas, desacreditando assim o Cristianismo. No seu “De Genesi ad litteram” escreveu
“Até os não-cristãos sabem alguma coisa sobre a terra, os céus, o movimento e a órbita das estrelas…. Portanto é uma coisa vergonhosa ouvir um cristão dizer coisas absurdas sobre esses tópicos; devemos tomar todas as precauções para evitar uma situação embaraçosa em que os cristãos demonstram grande ignorância e por isso são alvo de desprezo”
Um conhecimento elementar de filosofia natural era, pois, recomendado, mas apenas para que os cristãos não passassem vergonhas perante os seus rivais pagãos bem informados, e, desta forma, não comprometessem a reputação do Cristianismo.
Concluindo, foi como muitas reservas que os padres dos primeiros séculos do Cristianismo lidaram com a herança intelectual grega. A filosofia clássica acabou difundida pelo mundo cristão, mas fê-lo, em grande medida, no período patrístico, através do filtro apertado da teologia cristã.
A Igreja não promoveu deliberadamente o conhecimento grego. O que fez foi servir-se dele para defender a ortodoxia face ao paganismo e às heresias, e, neste processo, expandir o seu próprio domínio.
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EVM
Bibliografia:
Edward Grant; “The Foundations of Modern Science in the Middle Ages”, Cambridge University Press, 1996.
Edward Grant; “God and Reason in the Middle Ages”, Cambridge University Press, 2004