6 de Setembro, 2026 Carlos Silva
«O ateísmo não existe…»

Imagem: Internet
«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»
Observador, Ricardo Ferreira, 26 abr. 2026
«O ateísmo não existe… e a culpa é dos ateus»
(…)
O ateísmo enquanto certeza, enquanto afirmação positiva da inexistência de Deus, tem ainda outro problema adicional, que apenas alguns ateus mais honestos reconhecem aceitando o custo. Para afirmar com certeza que Deus não existe em nenhum lugar, sob nenhuma forma, em nenhuma dimensão possível da realidade, seria necessário um conhecimento total e exaustivo de tudo o que é. Seria necessário o conhecimento total do passado, do presente e do futuro. Tanto quanto sei, nenhum humano tem esse conhecimento.
Quando falamos de ateísmo como certeza, falamos de uma fé. Uma fé invertida, mas ainda assim, fé. E esta fé exige o mesmo que os ateus criticam aos crentes em Deus: um salto além do que a evidência permite. Com uma importante diferença: os crentes em Deus admitem-no e os ateus torcem a narrativa para não admitir o salto.»
(…)
O ateísmo nada conclui e nada prova. É uma identidade que, como qualquer outra identidade abstracta, não passa no seu próprio teste. O que tem a sua piada, porque o lugar onde o ateísmo claramente não existe é exactamente o lugar onde o ateu mais insiste em verificar as coisas: na evidência empírica.
Ricardo Ferreira
Não foi pela indiferença de saber quem é, mas apenas pela diferença de análise que optei por não efetuar qualquer pesquisa sobre a sua pessoa…
Assim, após uma segunda leitura algo mais atenta ao texto…
Meu caro desconhecido Ricardo Ferreira,
Como ateu, “confesso” que a minha postura não foi nada “comovente”; pelo contrário; diria que senti uma misericordiosa necessidade de responder, sobretudo pela sua animosa referência ao ateísmo. É realmente um grandioso texto, do qual, depois de bem exprimido, não resultou praticamente nenhum sumo.
Quero, antes de mais, salientar que é impossível comparar o incomparável!
Ateísmo é simplesmente uma consequência do pensamento racional. Não implica existência, mas sim ausência de crença. Ausência de crença num ou mais deuses.
Não se pode comparar o ateísmo a uma crença!
O ateísmo, tal como o teísmo, só existe como conceito mental abstrato, porque um qualquer iluminado, baseado num simples ato de fé pessoal, afirma que existem entidades supranaturais. Se existisse alguma entidade supranatural, obviamente que não se justificaria a sua existência, uma vez que a crença esvaziar-se-ia deixando de fazer qualquer sentido. Se não houvesse pessoas a acreditar no que não vêm e não podem provar, obviamente que não existiria ateísmo nem teísmo.
Ateísmo não é uma filosofia em que possamos acreditar ou desacreditar, como devotamente procura confecionar. É um posicionamento de ausência de crença. É a admissão do óbvio com base na leitura racional que a ciência e a realidade nos mostram e demonstram. É a simples escolha do evidente e faz parte desta liberdade que hoje a laicidade nos concede; tal como a escolha do dogma religioso por mais absurdo ou ridículo que seja.
O ateísmo é simplesmente uma postura intelectual baseada na lucidez, na capacidade de duvidar, de analisar, de quem continua permanentemente a evoluir na sua compreensão e resulta de um processo de evolução pessoal, intelectual e ético.
O ateísmo não é apresentado como imposição ou superioridade, mas como consequência natural do pensamento racional, crítico e científico. Valoriza a liberdade individual, o humanismo, a tolerância, a solidariedade e a paz como pilares para uma sociedade mais equilibrada e sustentável.
O ateísmo não é negação ou combate à fé alheia, mas uma constatação baseada em factos e evidencias, afastando a crença no sobrenatural. Mais do que um rótulo, trata-se de uma forma consciente de estar no mundo, de viver o presente e procurar o conhecimento e a verdade através da razão.
Nenhum ateu parte da premissa que já conhece a verdade. O ateu analisa, erra, muda de opinião, acerta, erra, muda de opinião, acerta… até conhecer a verdade.
Nenhum ateu nega a existência de uma alegada entidade supranatural, vulgo «deus». Constatando a inexistência de provas ou evidências da sua existência, simplesmente não acredita no que o crente afirma existir com base num intrínseco ato de fé. Tendo em conta que essa suposta entidade supranatural se limita a uma imagem mental abstrata que varia conforme a imaginação do criador ou imputador, parece evidente que, qualquer mente minimamente ciente, não pode negar o que não existe, ou simplesmente confirmar a materialidade do amigo imaginário criado pelo próprio homem. Não podemos provar a sua inexistência porque só a existência pode ser provada. Daí que o ónus da prova esteja do lado do crente. O que negamos é a crença e não o conhecimento!
Resumindo…
Ser ateu não é negar ou lutar contra qualquer crença alheia.
Ser ateu é simplesmente constatar a inexistência de qualquer entidade divina.
Ser ateu é simplesmente raciocinar sobre a realidade dos factos.
Ser ateu é simplesmente retirar conclusões com base em provas fidedignas.
E concluindo…
O ateísmo não é nenhuma crença. O ateísmo não se impõe. É uma opção que resulta duma forma racional de estar e lidar com a realidade!
P.S. Como ateu, “confesso” que não acredito que uma mente realmente inteligente acredite no sobrenatural. Reconheço que o ateísmo não implica inteligência, mas realmente a inteligência pode levar qualquer mente minimamente racional ao ateísmo.
TEU ATÉ AO FIM, 2026-09-06 Carlos Silva
