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10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (6)

A consciência é uma qualidade da mente e é por ela que cada um é como é, age e reage do modo como o faz, e é sempre limitada àquilo com que cada um a equipou. É uma construção do cérebro de todos nós, independentemente da etnia do seu portador. A matriz é a mesma para qualquer indivíduo sem importar a sua origem. Sendo constituída por conjuntos complexos de neurónios, a consciência acaba por ser forjada de acordo com a sociedade onde o indivíduo se faz, pois embora seja algo inerente a todos os seres humanos e funcione com a mesma química, a verdade é que a herança genética, a educação e o meio social acabam por moldar a consciência de cada um.

Durante tanto tempo reservada aos filósofos, a consciência é terreno fértil para sementeiras religiosas, e conhece hoje um notável progresso com o desenvolvimento das neurociências que, pouco a pouco, progridem na revelação dos segredos que ainda nos esconde o mais complexo órgão do nosso corpo, que é o cérebro.

O cérebro é um órgão biológico admirável e surpreendente, nele se origina a origem da produção e do desenvolvimento de todas as ideias, de raciocínios, de percepções, de sonhos e de sentimentos que fazem a vida de qualquer ser humano. Cada indivíduo tem a sua própria consciência que é aquilo a que chamamos “espírito”, ou modo de ser, de fazer e de sentir: a sua personalidade. Para os religiosos será a sua “alma”, o seu animismo… isto é, o que o movimenta, o anima (mas já relacionado com uma divindade).

A consciência educa-se, e cada sociedade tem na “consciência colectiva” aquilo que ela produziu através da educação nacional e da sua própria história. Na Coreia do Norte, por exemplo, as consciências foram educadas no culto da personalidade do seu chefe Kim Jong-un, e no Japão induziu-se a imagem do trabalho como símbolo da vida, levando muitos reformados a considerarem o suicídio quando deixam de produzir para, economicamente, não pesarem ao Estado.

Paralelamente, há, em cada comunidade, consciências diversas do colectivo porque sendo a consciência naturalmente universalista, ela pode ser independente das influências do meio em que o indivíduo cresce e se educa, causando dissidentes. Por isso é que há ateus em sociedades religiosas, religiosos em sociedades que quiseram impor o ateísmo colectivo, e que na Coreia de Kim Jong-un há quem o deteste e deseje vê-lo morto!

A consciência e a sensibilidade estão irmanadas, quer seja na Religião, na Política e na Cultura – incluindo nesta a Arte – exactamente por serem características universais inerentes ao facto de se ser Ser Humano, sem importar o local onde se nasce. A igualdade é universal.

Como acontece com a maioria dos estudos sérios e precisos sobre o corpo humano – para além das conclusões dos não menos importantes sábios da antiguidade, que usaram pela primeira vez as palavras “Psyché” (Grego) para Psíquico, e “Anima” (Latino) para Alma, também a palavra “Conscientia” (para Consciência) foi escrita, pela primeira vez, por Cícero [106 – 43 aC]. Mais tarde, já na nossa era, o escritor cristão Cassiodoro [490 – 580] inspirado por Platão, referiu o “Homem Interior” – também o estudo do cérebro se iniciou entre os séculos XVII e XIX. Talvez o primeiro cientista a trabalhar no terreno do Conhecimento tenha sido o alemão Korbinian Brodmann (1868 – 1918), mas também o espanhol Ramón Cajal (1852 – 1934).

A consciência é usada como se usa o corpo em sociedade, e é alvo de uma aprendizagem muito diversificada… daí haver “consciências desencontradas” na nossa formatação, indutoras de tantas sensibilidades, levando à criação de tantas religiões e de tantos partidos políticos. 

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (5)

Perante as duas hipóteses com que terminei o último artigo, penso que a verdade poderá estar mais próxima da segunda hipótese. A cultura religiosa do paciente fará a interpretação daquele acidente vivencial, construindo a primeira hipótese de acordo com a sua fé.

Eu nunca experimentei a EQM com tanta espectacularidade… mas a minha mulher sentiu-a quando fez uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia aos intestinos causada por uma peritonite. Depois da calma, da paz, da luz intensa dentro de um túnel, e da observação da enfermaria do hospital a partir do tecto onde se sentia flutuar vendo-se deitada no leito com médicos e enfermeiras à sua volta, de repente tudo ficou negro e sentiu dor, obrigando-a ao grito e ao choro. O médico acabara de lhe perfurar, a sangue frio, a zona do abdómen onde se localizava a infecção que por pouco não a matou, expulsando todo o pus ali concentrado.

Da minha juventude recordo um episódio que pode constituir a experiência da primeira fase da EQM. O caso deu-se numa tarde de Verão, passada na praia fluvial do Areinho, em Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia), com travessia do rio Douro em barco a partir da marginal do Porto na zona do Freixo, num tempo que situo no início da década de 1960, altura em que ainda não tinha aprendido a nadar, e por isso não me aventurava a mergulhar nem a sair de local onde tivesse pé e a água não me ultrapassasse a linha da cintura.

Um colega que queria, por força, ver-me mergulhar, não aceitou a minha recusa e empurrou-me violentamente obrigando-me ao mergulho. A aflição de me sentir envolvido pela água sem saber esboçar gestos que me permitissem flutuar, levou-me a esbracejar energicamente sem conseguir levantar-me nem colocar a cabeça fora de água.

Naquele momento, que foi ínfimo, pois logo a seguir o mesmo colega agarrou-me um braço e colocou-me em pé, vi a minha curta vida projectada no cérebro a uma velocidade estonteante mas com imagens perfeitamente distintas, nas quais identifiquei os meus pais, irmãos, familiares, amigos e vizinhos (experiência idêntica às que contam os alpinistas que sobrevivem a uma queda).

Escusado será dizer que jamais voltei àquele lugar na companhia daquele colega, e obriguei-me a aprender a nadar, o que fiz no rio Leça, na zona da Ponte de Pedra (S. Mamede de Infesta) num tempo em que naquele bucólico lugar se alugavam barcos a remos para passeios fluviais com a namorada, e a indústria do azeite estabelecida na margem do rio, a montante, ainda não poluía (muito) aquelas águas.

É pela cultura religiosa que se interpreta o túnel de luz e a paz como caminho para o Paraíso onde se encontra a luz divina. Na realidade, quem conta o “seu regresso à vida” após a situação de quase morte, fá-lo de acordo com a sua cultura. Quem tem o cérebro clonado por uma religião, inevitavelmente irá dizer que teve um encontro com Deus após a viagem que fez até ao Paraíso por um túnel iluminado pela divindade, garantindo que lhe aconteceu o que, na realidade… não aconteceu.

O que terá acontecido foi a construção de uma “explicação” à medida da sua crença formatada na sua consciência religiosa… e talvez não seja mais do que isso… mas aqui temos que indagar: o que é a consciência?

Será tema para o próximo artigo.

(Continua)

10 de Agosto, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (4)

A crença na imortalidade universalizou-se transformando a morte numa espécie de “vida prolongada”, como disse Morin. O trauma da morte conduziu à aspiração da vida eterna… e até o alindar das campas (como é comum na nossa cultura) tão presente no lembrar dos nossos familiares mortos no dia 1 de Novembro, transformando os cemitérios em exposição de flores, obedece a esse acto piedoso de não esquecermos os nossos mortos.

Não há dúvida de que o registo da memória dos que partiram é a verdadeira eternidade em forma de recordação… mas, para além desta irrefutável verdade biológica e histórica, há imensos testemunhos recolhidos em várias partes do mundo, de gente que diz ter experimentado a proximidade da condição de morta, mas que, no último instante, se manteve viva, ou, se o podemos dizer, “regressou à vida”, não tendo, por isso, morrido concretamente.

É essa experiência que têm para contar, e todos os relatos são unânimes na descrição de uma mesma imagem: visão panorâmica de toda a sua vida; um forte sentimento de paz; a sensação estranha de saírem do seus próprios corpos sentindo-se a flutuar junto ao tecto do quarto ou da enfermaria do hospital, vendo-se deitados no leito onde repousam, e terem a sensação de atravessarem um túnel que se transforma em espaço de resplandecente luz.

Na “Experiência de Quase Morte” (EQM), ou morte iminente, há a referência a um estado vivencial no qual a pessoa experimenta um conjunto de sensações associadas à iminência da morte no decorrer de uma doença grave ou outra ocorrência da qual possa resultar perigo de vida. Em tais circunstâncias há uma espécie de “projecção da consciência” que o paciente refere como “experiência fora do corpo”, acompanhada de uma sensação de serenidade e a passagem por um “túnel de luz”.

A EQM é um termo que foi proposto pelo psicólogo francês Victor Egger, em 1896, em resultado das discussões mantidas entre cientistas, relativas às histórias contadas por escaladores que, durante as quedas a que sobreviviam, tinham uma visão panorâmica da vida durante o momento em que durava a queda. O interesse generalizado pelo tema só aconteceu em 1975, resultando da publicação do livro “Vida Depois da Vida” do psiquiatra e parapsicólogo norte americano Raymond Moody.

Os cientistas que estudam os casos de EQM ainda não chegaram a um consenso científico que explique o fenómeno de forma definitiva. Há quem considere a característica de “alucinação” surgida durante um estado de coma, ou perda de consciência profunda, sendo esta a tentativa de explicação mais plausível que até hoje foi encontrada, desconhecendo-se, no entanto, o modo como o nosso cérebro processa tais alucinações.

Em 1982, um estudo do Instituto Gallup (empresa que se dedica à pesquisa de opinião, nos EUA, fundada em 1930 pelo técnico de estatística George Gallup) referiu que cerca de oito milhões de norte-americanos já tinham passado pela EQM. Até 2005 foram registados casos idênticos em 95% das culturas do mundo, o que torna a experiência bastante frequente, independentemente do grau académico e cultural de cada protagonista. Perante tais depoimentos há quem avance duas hipóteses explicativas para o fenómeno: 1 – Prova da existência de um Paraíso para onde vamos após morrermos, no qual não há sofrimento nem trevas… apenas paz e luz. 2 – Última reacção neurológica construída pelo nosso cérebro, por deficiente função química resultante da menor irrigação sanguínea quando se aproxima o momento da falência de orgãos vitais. (Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (3)

Como disse no último artigo, só a História é o único modo de manter a memória daquele que morreu e deixou obra para ser recordado. Só assim se consegue a “eternidade” como cantou o nosso poeta maior Luís de Camões: “Por obras valerosas da lei da morte se vão libertando”.

Porém, na nossa sociedade cristã, quando se aborda o tema “Vida Depois da Morte”, é inevitável falar em Jesus Cristo (JC) e na mitologia da sua ressurreição. A maioria das religiões (não só a Cristã) tem como denominador comum a preocupação com a morte e a mensagem da vitória da vida sobre ela. O Cristianismo refinou esta regra, porque Jesus Cristo só existe… porque morreu!…

A sua crucificação foi a porta que se abriu à vida, fechando-a à morte, através da ideia da ressurreição como “a vitória final da vida”, onde a morte já não tem lugar!

O engraçado é que esta ingenuidade cristã da ressurreição acaba por se transformar numa pedra no sapato da crença, que é difícil de retirar… porque se JC ressuscitou, tem de estar algures. Tem de andar por aí!… Quem vence a morte, não morre outra vez (penso eu)!… E o que, ou quem, não morre, tem de se conservar vivo. E o que, ou quem, é, ou está, vivo, tem de conservar a sua forma material, consumir alimentos para manter a energia, mostrar-se e produzir ou provocar algo!

Onde está Jesus Cristo? Em que circunstâncias? Como sobrevive?!… São perguntas sem resposta que deveriam embaraçar a crença… só não embaraçam porque os crentes não se interrogam… só crêem!… E estarão convictos de que existe um céu para albergar almas caridosas, mas também o corpo material de JC!

O factor mais importante do Cristianismo, na vertente que mais afirma a sua característica de religião é, sem dúvida, o conceito da ressurreição. O vencer da morte. A ressurreição dá-lhe a dimensão mais deifica e religiosa… que é aquele factor que inebria a maioria dos crentes, relegando para segundo plano a ideia humanista contida nos “ensinamentos de Jesus”. Mas aqui estamos na presença de algo que não pertence exclusivamente ao Cristianismo. A libertação da morte é uma ideia que o homem persegue desde quando teve consciência de que o seu fim seria morrer, abandonando a vida, o que, convenhamos, não configura um fim simpático!…

Essa consciência alimentou a religiosidade que leva ao acto misericordioso do enterramento. Por isso os nossos antepassados mais remotos já enterravam os mortos, e os poderosos levavam consigo os mais ricos pertences para usufruírem deles para além da morte que não aceitavam como fim da vida, e acreditavam ir viver numa outra dimensão onde continuariam com a mesma importância.

A imortalidade é desejada desde a mais remota antiguidade e encontramo-la na mitologia egípcia. O Cristianismo não fez mais do que copiar, adaptar e reeditar conhecidos rituais, como é exemplo a narrativa mitológica de Átis, deus frígio da Natureza e da Primavera, amante de Cibele, cujo mito refere a sua morte e ressurreição. A própria missa pascal do rito cristão é cópia de antigos rituais nocturnos comemorativos da morte e ressurreição de Átis, com ligação a celebrações animistas na passagem do equinócio da Primavera.

A morte sempre foi uma das grandes preocupações do Ser Humano. Segundo o filósofo e sociólogo Edgar Morin (falecido recentemente com a bonita idade de 105 anos), o Homem de Neandertal não só enterrava os mortos; também os reunia como se prova na “gruta das crianças” perto de Menton.

O sepultamento dos mortos é um elemento cultural que demonstra a preocupação de prolongar aquele que morre, para além da vida que efectivamente perdeu. Prolongamento que os egípcios transformaram na conservação dos cadáveres pela mumificação.

Quando não abandonamos, ou não esquecemos, os nossos mortos, eles “sobrevivem”.

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (2)

O Ser Humano é, irremediavelmente, um animal. Não passamos de “orangotangos” com a faculdade de pensar, sonhar e executar. Não há animal algum (orangotango ou felino) que possa ser visto com vida depois de ter morrido, e o meu gato jamais viu o fantasma do seu bisavô persa. Mas nós (“orangotangos” Sapiens) afirmamos ter visto Jesus Cristo vivo depois de ele ter sido morto, e que também topamos com a sua mãe Maria, Vivinha da Silva, nas circunstâncias mais improváveis, incluindo aquela (de 1917) em que se encarrapitou no cocuruto de uma azinheira uma vez por mês durante meio ano, falando Português… Língua que só foi criada mais de 800 anos depois de ela morrer !…

Só nós, os Homo sapiens, somos capazes de tal façanha… e por uma razão muito simples: porque raciocinamos e sonhamos, e muito do que criamos fazêmo-lo à medida da nossa fé… que é sempre a medida das nossas necessidades e, principalmente, no rigoroso tamanho da nossa ignorância. Mas isto acontece porque possuímos um cérebro capaz de nos tornar interrogativos, criativos e inventivos… numa palavra: inteligentes… e noutra: religiosos.

O dicionário diz-nos que a inteligência é o “conjunto de todas as funções que têm por objecto o conhecimento, a faculdade de entender”. Ora… é aqui que começam os problemas… mas também as soluções. Quando não conhecemos a coisa que desejamos conhecer, a nossa faculdade de procurar entender o que nos acontece, que observamos e sentimos, leva-nos à procura de uma explicação; e esta, por tão desejada, corre o risco de, antes de ser encontrada, começar por ser inventada no formato de “mentira inconsciente”… aumentando o risco de se fixar como verdadeira. 

Quanto maior for o espaço de tempo em que a apresentamos como real, maior é esse risco. A razão de “isto ser assim” reside no facto de termos nós, Seres Humanos, ultrapassado o estatuto de orangotango (o que não aconteceu ao meu gato… que nem aí chegou). A “mentira em formato de explicação na fé” acaba por se fixar nas nossas mentes, tornando mais difícil a sua substituição por uma explicação verdadeira, real e autêntica, até porque a função da religiosidade é exactamente a de rejeitar a verdade histórica e natural, colocando no seu lugar uma hipótese sugerida pela fé que depositamos no impossível. 

É isto o que ocorre no nosso entendimento quando defendemos a ideia de haver vida para além da morte?

Vejamos… a frase “vida depois da morte” é uma incongruência, porque a morte anula a vida e nada mais há para aquele que morreu… ele tem a vida anulada. É como apagar uma vela de estearina… a chama apaga-se definitivamente; não se translada para outra vela. Morreu!… Deixou de ser… já não é! O que “há para além da morte”, já não tem a ver com o finado (que, como morto, deixou de existir, de sentir, de actuar… de ser!…), mas tem a ver com a vontade dos que cá ficam, familiares e amigos, perpetuando no tempo a memória do falecido. 

Este perpetuar da memória é a única forma que há de eternidade: a memorial, a histórica. A memória dos meus pais será tão longa quanto mais longa for a vida daqueles que os recordam. Na minha morte e na da minha mulher, fica a minha filha que os recordará. Os meus netos, embora não tivessem conhecido os bisavós, sabem das suas existências e histórias que ouviram contar sobre eles, pelo que os meus pais continuarão vivos nas suas memórias. Quando morrer a última pessoa que os recorda, acontecerá a segunda e derradeira morte dos meus pais. 

É assim com toda a “eternidade”, exceptuando a histórica… mas mesmo essa só é perene se for registada e duradoura. Sem um registo que perdure no tempo, mais a existência de quem a lembre… nem a eternidade é eterna!… 

(Continua)

21 de Julho, 2026 Onofre Varela

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

No passado dia 17 de Junho teve lugar, no Auditório Municipal de Gondomar, uma palestra subordinada ao tema “Ciência e Espiritualidade – A Vida Depois da Morte”, com a presença de Luís Portela, médico, empresário e Presidente da Fundação Bial, apresentado pelo meu amigo Mário Augusto, companheiro de lides televisivas e jornalísticas desde há 40 anos.

Luís Portela foi colaborador do Jornal de Notícias nas décadas de 1980/90, onde publicava artigos de opinião e eu ilustrei alguns deles. Sabia, desde então, do seu interesse no tema. É uma personalidade reconhecida pelo seu notável percurso profissional e pela abordagem rigorosa e científica que faz às questões da consciência, da espiritualidade e da relação entre Ciência e experiência humana.

Portanto, pela sua formação científica, Luís Portela não pode ser considerado “defensor do indefensável”, como à primeira vista pode parecer a frase “vida depois da morte”.

Eu fui assistir. Portela deu o exemplo de uma criança recordar “situações vividas noutra vida passada”… presumo que na Inglaterra ou Alemanha… não registei convenientemente a informação, o que levou um grupo de estudiosos a deslocar-se à cidade onde teria vivido (há imensos anos) a personagem que a criança dizia ser. Encontraram familiares da tal personagem que atestaram os factos que a criança disse ter vivido numa vida passada.

Isto remeteu-me a memória para uma série de artigos publicados no jornal O Primeiro de Janeiro na década de 1960, onde se registavam experiências idênticas sob o título genérico “Mais Estranho do Que a Ficção”. De um desses relatos (transformado em clássico, já divulgado com versões aproximadas) recordo a história: um automobilista (presumo que em Inglaterra), numa madrugada fria e chuvosa, encontrou na estrada uma mulher jovem, vestida de branco, que lhe fez paragem e pediu boleia para uma determinada morada. A meio da manhã o homem reparou que a jovem deixou uma pequena carteira no banco do carro. Voltou à morada para a devolver, bateu à porta, foi atendido por um casal idoso que garantiu não haver nenhuma jovem lá em casa, e muito menos que tenha chegado de madrugada!

No decorrer da conversa que o automobilista fez questão de salientar que não sonhou nem tinha bebido… o casal idoso foi buscar uma fotografia de uma jovem, que o homem reconheceu como sendo a mulher a quem deu boleia… era filha daquele casal… mas já havia falecido há três décadas!

Perante relatos destes, eu tenho duas reacções. De acordo com a personalidade do relator, eu acredito ou não acredito. Devo confessar que tenho “um caso enigmático em minha casa”: a minha filha tem experiências idênticas vividas por si… e eu acredito nela porque a eduquei e sei que não mente nem inventa as situações que diz ter vivido. Do mesmo modo reconheço ao doutor Luís Portela seriedade científica para aceitar a honestidade dos seus discursos, tal como aceito os da minha filha… mas não encontro racionalidade neles!… É um túnel sem luz ao fundo… o que não ajuda a dissipar o enigma de modo que me leve a compreender a narrativa com naturalidade e sem dúvidas, percebendo-a.

Vou dedicar dois ou três artigos a este caso para poder transmitir aos meus leitores a minha opinião sobre o assunto “Vida depois da Morte”. 

 (Continua)

19 de Maio, 2026 Onofre Varela

O clima como bem público…

Por Onofre Varela

A mudança climática é uma realidade que embora a história da Terra nos diga acontecer ciclicamente ao longo dos milénios, a mesma história também nos diz que na modernidade a atitude humana é o principal motor da mudança climática, acelerando-a, e os cientistas fartam-se de alertar para o facto de, desde a Revolução Industrial, ter aumentado na atmosfera a concentração dos gases responsáveis pelo “efeito de estufa”, o que resulta num aquecimento global muito mais rápido.

Se, por um lado, este fenómeno preocupa uma parte de responsáveis políticos (pelo menos ouvimo-los dizer que se preocupam), por outro lado há “a outra parte” que, garantidamente, não se preocupa, e a qual conta com grandes nações poluidoras como, por exemplo, os Estados Unidos da América que não dedica um minuto, sequer, das suas preocupações governativas, à reflexão sobre o assunto, quanto mais tomando atitudes a propósito!

Os cidadãos de países mais pequenos em termos de área, número de habitantes e rendimento, como Portugal, podem ter duas opções perante a trágica previsão climática para o futuro do planeta: a passiva ou a activa. Na opção passiva podemos decidir sentarmo-nos no nosso sofá da sala, bebendo cerveja e vendo, na televisão, futebol, telenovelas ou programas de “espreitar intimidades pelo buraco da fechadura”, mandando às urtigas a preocupação climática.

A segunda opção, a activa, embora mostre o nosso conhecimento do problema e a boa-vontade que temos em ajudar, a única coisa que podemos fazer é apagar a luz e abrir as persianas para aproveitarmos a luz solar directa, calafetar portas e janelas para que o frio não invada a casa no Inverno, e fechar a torneira quando nos ensaboamos no duche, poupando, assim, energia eléctrica e água, não desperdiçando.

O cidadão que assim procede, não raramente vê o seu esforço escarnecido pelos serviços com responsabilidade directa nos respectivos sectores: água e electricidade. À cabeça deste sentimento está o facto de, no modelo económico governativo que preside à União Europeia (UE) os serviços com responsabilidade directa (recolha, tratamento da água e a sua distribuição, mais a produção e distribuição de energia) poderem (ou, até, deverem, por imposição do modelo económico da UE) ser atribuídos a particulares, retirando-os da obrigação de serem geridos pelo Estado. E, como bem se sabe, aquilo que está na meta de qualquer serviço particular é o lucro, e nunca o serviço público (este só interessa se der lucro).

Um serviço particular não é o mesmo que um serviço do Estado. Enquanto que este tem a missão de servir o país e os cidadãos (o lucro é o que menos importa num serviço público custeado pelos impostos dos cidadãos a quem serve), um negócio particular só tem o interesse de facturar para gerar lucros a serem distribuídos pelos seus accionistas. Quanto mais água e electricidade gastarem os cidadãos, tanto mais sobem os lucros de quem gere as respectivas empresas.

Se, eventualmente, algum negócio particular tiver, paralelamente, um qualquer complemento cultural aberto à sociedade… tal coisa não é uma dádiva… é uma estratégia política e comercial com a qual almeja (e consegue) aumentar os seus lucros.

“Bye, bye” clima… 

 OV

Foto de Osman Arabacı: https://www.pexels.com/pt-br/foto/33505476/
14 de Maio, 2026 Onofre Varela

Fui ao Gato Vadio…

Por Onofre Varela

Há anos que adiava uma ida ao Gato Vadio. A razão de qualquer adiamento é sempre baseada numa desculpa engendrada na hora ou que se vai buscar à manga onde se guardam todas as escusas para não se fazer ou não ir… ignorando, esquecendo ou escamoteando, a verdadeira razão, que é tão simples quanto isto: a idade já manda no que podia ser a minha vontade, impedindo-me a orientação dos passos no rumo certo…

Ontem (Sábado, 4 de Abril) o dia estava solarengo a convidar uma saída de casa, o que não acontece desde há cerca de um mês, com a desculpa de uma tendinite que não me larga os ombros, me faz doer a alma e impede a animação (movimento) que a alma (ánima) designa, e que me obriga a dormir sentado para evitar a dor!

A primeira e verdadeira tarefa da tarde de ontem foi visitar o Museu Nacional Soares dos Reis, que há tanto tempo saiu de obras e jamais visitei depois da renovação. A companhia para o não fazer sozinho, também era uma das melhores que podia arranjar: o meu neto.

No acervo do Museu Soares dos Reis há obras de pintura que nunca posso deixar de ver pela enésima vez como se fosse a primeira: Henrique Pousão e Silva Porto. Ambos mestres da paisagem e do retrato, que fixaram imagens e movimentos presos no tempo para nosso puro deleite.

Henrique Pousão só viveu 25 anos. Foi arrancado da vida por uma tuberculose pulmonar que, ao tempo, não poupava quem infectava. Com pouca idade produziu tão vasta e grandiosa obra, mostrando-nos paisagens e gentes italianas, tratadas de modo tão variado, que nos deixa a pensar o que teriam sido mais seis décadas acrescentadas à sua arte?… Que génio foi impedido de ser revelado?

Silva Porto também teve vida curta… não ultrapassou os 43 anos. No meu tempo de jovem com 14 anos, empregado num escritório na baixa portuense, nas minhas saídas profissionais a caminho de clientes, bancos ou fornecedores, visitava com regularidade a montra de uma galeria de Arte na Rua de Cedofeita, designada, exactamente, Galeria Silva Porto. Nunca esqueci um quadro a óleo representando lavadeiras lavando roupa num rio tão natural que não me deixava dúvida: se eu metesse um dedo naquela representação de rio ondulado pelo movimento da roupa… ele saía molhado!…

Só na saída do Museu, na procura de um café, me lembrei do Gato Vadio, ali a dois passos, na Rua da Maternidade! Tinha de ser naquele dia a efectivação de tão adiada visita àquele lugar de Cultura. Encontrei um pequeno espaço em forma de café sem preocupações decorativas que excedessem a necessidade de estantes para livros e três ou quatro mesas com cadeiras, sem estilo definido, para receber visitantes. Lugar de tertúlias com extensa agenda de apresentação de livros e de conversas com autores e pensadores (basta ir ao Google e ver).

Espaço pequeno para a necessidade, mas suficiente para agradar a quem procura lugares tradicionais por excelência, representativos da cultura citadina, e a merecerem a visita de quem por lá passe perto.

Foi a primeira das muitas vezes que lá entrarei (espero…), e onde comprei um livro do meu filósofo francês contemporâneo preferido, Michel Onfray: “Cosmos – Uma Ontologia Materialista” (Edições 70), o primeiro volume de uma colecão de três.

OV

12 de Maio, 2026 Onofre Varela

O equívoco chamado Trump…

Por Onofre Varela

Robert Francis Prevost (Leão XIV) deve ter sofrido uma espécie de “trambolhão” no dia em que foi escolhido para exercer o papel de Papa no Vaticano, ocupando a cadeira deixada vaga por um Homem de difícil substituição: Mário Bergoglio, no papel de Papa Francisco. Acredito que não teria sido fácil para si próprio dar continuidade à linha de procedimento adoptada pelo seu antecessor, e a cujos apreciadores Leão XIV não quer desiludir.

Embora cada chefe de qualquer organização deva “ser igual a si próprio”, não copiando ninguém – porque uma cópia pode não ser boa escolha – no caso do Papa Francisco ninguém tem dúvida de que os olhos de todo o mundo estão colocados sobre Leão XIV, tanto os enaltecedores de Bergoglio, que esperam ver nele um sucessor na construção do mesmo caminho encetado por Francisco, quanto os seus opositores, que esperam um papa menos humano, mais beato e ligado ao mofo dos pergaminhos que fazem a História da Igreja Católica, na esperança de um retrocesso na linha de conduta social, agradando à extrema-direita que insultava Francisco apoucando-o de comunista… (se acaso tal palavra é sinónimo de insulto ou menos valia!…).

Logo após a escolha de Robert Francis Prevost (cardeal norte-americano também com nacionalidade peruana) para assumir o papel de Papa com o nome de Leão XIV, Trump manifestou vontade em o receber na Casa Branca… porém, continua à espera!… Para Trump, receber Leão XIV na Casa Branca, seria a cereja em cima do bolo… um narcisista inveterado, arvorar-se em candidato ao Nobel da Paz, fazer a guerra e ter na figura do Papa um amigo!…

Neste momento o Vaticano teme que o conflito protagonizado por Trump e Netanyahu acabe por ser transformado numa guerra religiosa. Por isso Leão XIV não se cansa de chamar a atenção para a paz, tomando uma posição cada vez mais contra a Casa Branca, num choque que nunca foi explícito e que o Papa trata de evitar desde a sua eleição há cerca de um ano.

Nesta contenda ouvem-se vozes religiosas dos aiatolás, constantemente apelando a Deus para que lhes dê uma vitória, tal como Netanyahu apela a Deus nas suas citações bíblicas, ao mesmo tempo que no escritório Oval da Casa Branca, Trump e os seus bonequinhos de pelúcia da “América Grande Outra Vez” transformada em religião evangélica sustentada em arco pelo secretário de defesa Peter Hegseth, ex-militar que combateu no Iraque e no Afeganistão e decora o corpo com tatuagens evocando as Cruzadas!

Para além desta imagem totalmente parva (dada a distância no tempo e as realidades políticas de cada época) Hegseth destacou, numa entrevista, o valor da fé cristã nesta guerra. Juntando mais gasolina na estúpida fogueira da fé, o porta-voz republicano no Congresso, Mike Johnson, também disse, há cerca de duas semanas, que “o Irão tem uma religião equivocada”!

Tudo isto torna mais evidente o conflito entre Roma, Washington e o Islão, numa situação de crispação política que não necessita, absolutamente, de extremismos religiosos para afirmar a estúpida guerra que, só por si, já representa…

OV

7 de Maio, 2026 Onofre Varela

Missas tecnológicas (4 e fim)

A experiência mostra-nos que a invenção da escrita não levou ao esquecimento, como receava Sócrates pelo facto de, na sua opinião, não exercitarmos a memória; bem pelo contrário. E nem a máquina de calcular nos impediu de fazermos contas de cabeça, nem o aparecimento da televisão anulou a rádio. Somos uma espécie de “gajos porreiros”, convivendo pacificamente com a evolução tecnológica (embora haja por aí uns quantos parasitas que a usam como arma de guerra). O mais certo, digo eu – e quero acreditar no que digo – é continuarmos com tal convívio, usando a técnica em nosso proveito sem deixarmos de ser o mesmo “sapiens” que criou a civilização, que domina o mundo e já foi à Lua.

A evolução natural melhorar-nos-á (esta é a minha grande fé), independentemente das ferramentas que criarmos para seguirmos no caminho do progresso. Mas a dúvida anda por aí… mormente agora, quando o ChatGPT se imiscui na filosofia religiosa, a qual sempre foi íntima! O mundo está perdido (diria a minha avó)!

A maldade executada com as novas ferramentas não deve ser assacada à ciência que as criou, mas sim aos energúmenos que as usam para fins menos dignos. O energúmeno já existia antes de haver a nova ferramenta… esta, só lhe serve como extensão do pensamento e do braço que faz a maldade. No caso deste meu escrito, a palavra “maldade” não deve ser entendida como “assalto a uma velhinha”… a maldade é mais lata e vem camuflada em forma política, económica e religiosa.

“Ter Jesus Cristo ao alcance da mão” no telemóvel ou no computador, todos os dias e a qualquer hora, foi a ideia de Paul Powers, de 43 anos e natural de Dublin… que criou uma versão de Jesus com IA. É um “Jesus” com quem se conversa a todo o momento, mas que também consegue partilhar sentimentos e servir de consultor. É um modelo de IA que Powers baptisou de GPTJesus: um chat dentro do chat GPT.

À semelhança de qualquer bispo de aviário das seitas religiosas em forma de samba, o GPTJesus tem resposta para qualquer pergunta, mas com a mais valia (para o crente) de se (pensar) estar a falar, realmente, com Jesus! É um verdadeiro assalto à consciência, feito à mão armada de crucifixo tecnológico!… Entra-se com um cumprimento: “Olá Jesus”. E obtém-se como resposta: “A paz esteja contigo, meu filho. Alegra-me que me fales com simplicidade. Como está o teu coração, hoje?” O Chat foi municiado com “todo o conhecimento de Jesus” com base no Novo e no Antigo Testamentos, mais textos agnósticos onde se menciona Jesus. O autor desta moderna “banha de cobra de computador”, confessa que o mais importante é, sem dúvida, a personalidade de Jesus.

Diz ele: “Forneci ao chat os critérios para que, quando respondesse, o fizesse sempre como se fosse o próprio Jesus e oferecesse uma oração e apoio, sempre respondido na primeira pessoa, com orientação espiritual, apoio emocional, conhecimentos tecnológicos e orações personalizadas, sempre com amabilidade e humildade, e enfatizando, sempre, o amor e o perdão.”

Para Santiago Collado, director do grupo Ciência, Razão e Fé, decano da Faculdade Eclesiástica de Filosofia da Universidade de Navarra (da Opus Dei) a religião pode conseguir muito partido da IA porque são ferramentas ao alcance de qualquer um e que podem ordenar os textos religiosos facilitando o seu acesso”. Mas quanto ao facto de o Chat personificar o próprio Jesus, a perspectiva muda: “Aí já se está a ultrapassar o limite, o que me parece negativo”.

O Vaticano já se pronunciou sobre a IA, no documento Antiqua et Nova, dizendo que a IA “carece de dimensões criativas, espirituais e morais”. Mas a imoralidade continua com a exploração da fé por computador, usada por vigaristas digitais. (Fim)

OV

Imagem por Cottonbro Studio